Mesa redonda 1 – Gênero, raça e classe: mudanças e permanências no mundo do trabalho

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Gênero, raça e classe: mudanças e permanências no mundo do trabalho

Data: 07/09/2017

Coordenadora:

Angela Maria Carneiro Araújo,

Professora do Depto de Ciência Política da Unicamp e Pesquisadora do Pagu – Núcleo de Estudos de Gênero.

Expositoras:

Helena Hirata

(Pesquisadora Emérita da Equipe Genre, Travail Mobilité do CRESPPA (Centre de Recherches Sociologiques et Politiques de Paris) CNRS e Professora Visitante no Depto de Sociologia da USP

Maria Betânia Ávila

Doutora em Sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco, Pesquisadora do SOS Corpo – Instituto Feminista para a Democracia. Membro do GT do CLACSO – Feminismos, Resistências e Processos Emancipatórios.

Liliana Segnini

Professora Titular da Faculdade de Educação da Unicamp e docente da Pós Graduação da Faculdade de Educação e do Doutorado em Ciências Sociais do IFCH da Unicamp.

Angela Maria Carneiro Araújo

Professora do Depto de Ciência Política da Unicamp e Pesquisadora do Pagu – Núcleo de Estudos de Gênero.

Ementa/resumo

Desde que estudiosas do trabalho proclamaram em seus escritos que “a classe operária tem dois sexos”, as mulheres trabalhadoras passaram a ser incluídas nos estudos sobre o trabalho, acabando com a longa invisibilidade de sua participação na produção e nas atividades remuneradas. O questionamento da visão parcial e da concepção estrutural do trabalho feminino predominantes nesses estudos só foi realizado a partir da introdução dos conceitos de gênero e de divisão sexual do trabalho nos anos 80. A abordagem relacional trazida pelo conceito de gênero permitiu uma ampliação das pesquisas que passaram a abordar as relações
entre homens e mulheres nos distintos setores da economia, a divisão sexual entre segmentos produtivos e mesmo no interior das fábricas e empresas, trazendo assim uma contribuição significativa para a compreensão tanto das desigualdades vivenciadas no âmbito do trabalho produtivo e do trabalho reprodutivo, bem para a compreensão dos impactos no mundo do trabalho das mudanças que vinham ocorrendo nas relações de gênero nas sociedades ocidentais em decorrência das lutas feministas. Mais recentemente, a partir dos anos 2000 no Brasil, vêm ganhando corpo estudos teóricos e empíricos que procuram compreender as interconexões entre gênero, raça e classe na reprodução das desigualdades no universo do trabalho.

O acúmulo de desvantagens define situações que implicam oportunidades e formas de vulnerabilidade diferenciadas para as pessoas. Não é possível explicar essa dinâmica considerando apenas uma das variáveis (gênero, raça ou classe) isoladamente. As desigualdades no acesso à escolarização superior, aos empregos formais, à renda compatível com uma melhor qualidade de vida, aos postos de trabalho melhor remunerados, a maior tempo livre, aos direitos trabalhistas e à proteção da seguridade social, à participação sindical e em outras organizações coletivas, correspondem a formas de opressão e exploração, que são mais bem compreendidas quando se considera a interseccionalidade ou consubstancialidade das relações de classe, gênero e raça. A proposta da mesa é debater as concepções teóricas de interseccionalidade e consubstancialidade e as contribuições de pesquisas empíricas sobre a produção e a reprodução de vidas precárias de mulheres trabalhadoras, sobre os processos migratórios de trabalhadores/as das artes e do espetáculo e sobre a dinâmica recente de mudanças e permanências no mercado de trabalho brasileiro para a compreensão de como as interconexões entre gênero, classe, raça e outras relações como as de geração e de nacionalidade, entre outras, operam concretamente em distintas realidades e dimensões das relações de trabalho.

RESUMO das Exposições:

Helena Hirata

Feminismos materialistas e interseccionalidade:

contribuições teóricas à analise do lugar das mulheres no(s) mundo(s) do trabalho O objetivo dessa comunicação é de indicar algumas contribuições teóricas das teorias da interseccionalidade e dos feminismos materialistas à analise das relações entre gênero e trabalho. Ampliando as relações sociais de sexo como relações de poder para as relações de classe e de raça, e afirmando sua interdependência, as teorias da interseccionalidade ou da consubstancialidade recusam a hierarquização em termos de preeminência de uma das dimensões sobre as outras. Da mesma maneira, os feminismos materialistas colocam em questão a preeminência da classe social sobre o gênero ou a raça, pois também recusam a hierarquização que, nos enfoques marxistas tradicionais, colocam a classe social como determinação em ultima instância. De que maneira essas teorias hoje de grande atualidade no debate entre as estudiosas sobre gênero e trabalho repercutem sobre as analises sobre o lugar das mulheres nos(s) mundo(s) do trabalho?

Maria Betânia Ávila

“Divisão sexual do trabalho: produção e reprodução de vidas precárias”.

Com base em resultados de pesquisas empíricas sobre mulheres inseridas em contextos de trabalhos precários, a exposição apresenta uma análise crítica sobre: os aspectos constitutivos de uma jornada de trabalho, intensiva, extensiva e intermitente na relação com a vida cotidiana e as trajetórias profissionais considerando os processos de desapossamento e exploração e os sentidos da autonomia econômica na percepção dos sujeitos. A elaboração terá como referência o conceito de divisão sexual do trabalho como elemento estruturante das relações sociais de sexo/gênero considerando a consubstancialidade com as relações de classe e raça (Kergoat), e ainda como inspiração a noção de “vidas precárias” de Butler.

Liliana Segnini

Contribuições teóricas para o mundo do trabalho: relações consubstanciais de classe e gênero nos processos migratórios

A proposta desta comunicação é analisar as contribuições teóricas para o campo do trabalho, a partir da singularidade dos resultados de pesquisa recentemente desenvolvida (2014/2017), considerando os processos migratórios vividos por músicos e musicistas, tendo o Brasil como referência. A perspectiva teórica da consubstancialidade nas relações sociais de classe, gênero e diferentes nacionalidades, informam a relevância dos processos migratórios na expansão da mundialização e das políticas neoliberais, a convergência com a desconstrução e a crise política do Leste europeu, as múltiplas formas de procura do trabalho artístico, o crescimento do desemprego e das formas intermitentes de trabalho.

Na perspectiva da imigração foram analisadas as condições de trabalho e emprego dos músicos do Leste europeu, no Brasil. Quanto à emigração, foram pesquisadas as experiências vividas por brasileiros na França que se inscrevem no estatuto jurídico dos Intermitentes do Espetáculo. O que foi possível compreender na análise dos dados – estatísticas e entrevistas – que informam especificidades deste grupo de músicos selecionados, possibilitando ir além da singularidade de dois casos e trazer para a discussão elementos para a reflexão das mudanças observadas no trabalho, especialmente no trabalho altamente qualificado? Este é o desafio sociológico desta comunicação.

Angela M. C. Araújo

Relações de Gênero e raça na dinâmica recente do mercado de trabalho brasileiro

A exposição pretende discutir as mudanças no mercado de trabalho no Brasil, em um cenário de crescente formalização do emprego, a partir de um estudo quantitativo com base nos dados das PNADs do período 2003-2014. O objetivo da apresentação é discutir como se reconfigura, no contexto do crescimento econômico ocorrido nos governos Lula e Dilma, as relações entre os seguimentos organizados/formais da economia e as atividades informais e como essa reconfiguração afeta os modos de inserção, a renda e as condições de trabalho de homens e mulheres, brancos e negros. A partir do recorte de gênero e raça, e das variáveis de escolaridade e idade, serão abordadas as mudanças no perfil dos/as trabalhadores/as inseridos/as nas relações de trabalho formais e no trabalho informal, assim como serão identificados os segmentos econômicos e as ocupações nas quais ocorreu maior crescimento do trabalho formal ou da informalidade. Além disso, considerando a interconexão entre gênero e raça, a exposição pretende mostrar como as desigualdades de rendimentos entre homens brancos, homens negros, mulheres brancas e mulheres negras, permanece ou se aprofunda independentemente do grau de escolaridade e da idade dos/as trabalhadores/as. A análise dos dados revela também que a formalidade e a informalidade aprofundaram sua heterogeneidade devido às diferentes posições que nela ocupam trabalhadores e trabalhadoras, brancos e negros, com distintos perfis de idade, escolaridade e remuneração, bem como devido às suas interconexões decorrentes dos processos de globalização, de flexibilização do trabalho e dos processos de terceirização. Mostrou também a persistência das chances desiguais que ali têm as mulheres e, em especial, as negras, quando comparadas às dos homens brancos ou mesmo dos homens negros.

 

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